e andando no mercado ela percebeu: alguma coisa faltava, mas os potes cheios de água estavam ali, as goteiras da última chuva, as brasas macias da carne que queimava no churrasco, os pés nos sapatos úmidos, o vitral enorme e sujo da igreja. Verificou a bolsa, porque afinal sempre se pode ter esquecido algo, o batom, o dinheiro, o espelho, a carteira, a foto, o anel de noivado daquele desgraçado, será que nunca vou jogar fora, não hoje, não hoje, será que perdi moedas?, ela estava mastigando há pouco tempo, uma senhora ali na frente fedia a urina e uma mãe gritava com as crianças que corriam, uma galinha era degolada ali dentro daquela porta úmida e das paredes negras, de algum modo toda essa lama e cinzas, as flores pisadas num canto ao pé de uma barraca,
acho que ela se esqueceu de um sonho, naquele momento, e uma borboleta saiu de seu cabelo enquanto ela mexia na bolsa e foi-se pousar numa ossada que secava atrás dos prédios, atrás da cidade, atrás de muitos e muitos quilômetros de grama e soja, atrás de onde a gente se lembra quando passa nas rodovias e há o céu, as montanhas e lá longe mora o esquecimento.
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